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quinta-feira, 24 de maio de 2012


Hoje um rato me parou na rua. Um rato dos grandes, com rabo grande e imponente, pelo bem cinza - quase preto. Um rato bravo, injuriado, indignado; só fazia praguejar contra os humanos e dizia repetidamente que "esta cidade é uma humanolândia, vocês são a escória do asfalto e ainda entopem nosso bueiros" - ranzinzava em alto e bom som, voltado para mim, mas para que todos, alguns humanos e uma maioria de ratos, pudessem ouvir. Duas ratazanas velhas que estavam por ali se envergonharam, provavelmente religiosos, temerosas a Mickey, apiedaram-se de mim, vendo minha angústia e estupefação diante a tal situação; mas nada me acalmaria. Corri, com medo da morte que viria por belas pauladas - o rato ranzinza já dispunha de um bom pedaço maciço de madeira - e depois seria descartado, como se descarta qualquer lixo; corri, corri para o abrigo mais próximo, a fresta mais próxima e suja que suportaria um humano covarde com medo do mundo. Encontrei-a e me abriguei, feliz e assustado, numa brecha relativamente suja e com cheiro de cidade cinza. O rato ranzinza se foi, as ratazanas de idade tomaram seu rumo, trôpegas e com amuletos pendurados no pescoços - réplicas da imagem santa de Mickey Mouse; agora, só alguns humanos corriam por ali, apressados e atentos aos donos do mundo, ratos. Decidi sair, volta à selva e me arriscar entre os ratos, precisava comer e continuar a vida, sempre uma aventura. Só então percebi que estava entre baratas, e havia machucado algumas, que praguejavam e ameaçavam-me três vezes mais ferozes que o rato ranzinza e amaldiçoavam-me cinco vezes mais insatisfeitas com minha presença - e o resto da corja humana que deve ser incluída, pois é tão chata quanto um humano só. Baratas e ratos, a maior população mundial, decidiram acabar com a humanidade, essa praga, já não aguentavam mais esse mundo humano de mentira. As baratas foram as primeiras, exibiram suas patas e os ratos vieram em seguida, entraram nos sapatos do cidadão civilizado. E daí até o topo, tomaram o mundo que nunca fora humano, nem pertencesse à humanidade e extinguiram a raça, corja, humana com um método simples e rápido e eficaz, porém dolorido e sanguinário: ratos e baratas, num complô contra os humanos, tiraram-lhes os olhos, mas mantiveram a visão; tiraram-lhes os ouvidos, mas mantiveram a audição; tiraram-lhes a língua, mas mantiveram a fala; tiraram-lhes o cérebro e não precisaram alterar nada, não havia o que manter.

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